quarta-feira, 12 de maio de 2010

O GRITO NO ASFALTO

O asfalto repica o eco do andar apressado de Valdelice com Aramy no colo. O formigueiro humano já não mais assusta. O centro de São Paulo é o espaço de pedido de socorro. “Temos a certeza de que aqui em São Paulo tem pessoas com alma grande para ouvir nosso clamor e pedido de socorro. No Mato Grosso do Sul não temos mais para quem recorrer...” desabafou uma das lideranças Kaiowá Guarani, na manifestação no Ministério Público Federal.
Mãe guerreira
“Como mulher fico orgulhosa e agradecida, diante da manifestação dessa mãe, indígena, mulher e guerreira. É dignificante para São Paulo ouvir o grito forte de vida, resistência e crença num futuro melhor trazido por vocês Kaiowá Guarani”, disse a antropóloga Lucia Rangel, diante do depoimento contundente dos representantes desse povo no pátio do Museu na PUC.
Uma das estranhezas de Valdecile era o de não ver crianças naquela multidão de gente. Não via companhia para a pequena Aramy que carregava no colo o dia inteiro. Imaginava estar num cenário de guerra, em que as crianças deveriam estar guardadas em algum refúgio.
Como filha do cacique Marcos Verón, não cansou de chamar atenção para as barbaridades cometidas contra seu pai e repetidas em dezenas de vidas matadas na luta pela terra Kaiowá Guarani, nos últimos anos. Lembrou em todos os momentos o covarde assassinato dos professores Guarani, Genivaldo e Rolindo, cujos familiares, pai e irmão, estavam presentes nesta delegação indígena em São Paulo. Lamentou que o julgamento dos assassinos de seu pai tivesse sido remarcado apenas para o dia 21 de fevereiro de 2011, sob a alegação de que a justiça federal de São Paulo não tem mais dinheiro para fazer o julgamento esse ano. “Isso é uma vergonha. Se fosse um fazendeiro morto pelos índios, o julgamento e condenação teria sido em seguida e os índios estariam mofando na cadeia...”
Quando Valdelice com Aramy no colo, chegaram à rodoviária de Dourados, juntamente com os restantes da delegação, recebeu um vaso de flores brancas, como homenagem singela a todas as resistentes e guerreiras mães Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul. Com a certeza da missão cumprida dentro da luta que continua. Foi abraçar suas filhas e família na Terra Indígena de Dourados, nesse dia das mães.


Filhos da luta
“Enquanto tiver um Kaiowá Guarani de pé, a luta continuará”, afirmou Apikaverá, diante de uma platéia atenta. Os estudantes e professores da PUC de São Paulo que por mais de duas horas viram cenas em video e ouviram o depoimento lideranças, não apenas ficaram emocionadas e indignadas, mas certamente estarão buscando alguma forma de apoio e solidariedade com essa luta tão desigual mas dignificante desse povo.
“Chega de matarem nosso povo!Resistimos por mais de 500 anos e muito mais do que isso ainda vamos resistir!”, disseram as lideranças no memorial da Resistência. “Estamos vivos”, clamaram, diante dos representantes de movimentos e lutadores sociais, especialmente do movimento negro. Ouviram o compromisso dos presentes em colaborar com a luta indígena “pois a luta de vocês é também a nossa luta, contra o latifúndio, contra a exploração e opressão, no campo e na cidade. Aceitara o convite de visitarem as aldeias Kaiowá Guarani. Ficaram de viabilizar uma delegação, juntamente com outras instituições de Direitos Humanos e combate à desigualdade racial.
Ao retornarem a seus espaços de vida, luta e resistência estão convencidos de que semearam gritos de socorro e esperança para a reconquista de suas terras e seu futuro com dignidade. Só lamentam não terem sido recebidos pelos desembargadores, pois é daí que partem muitas decisões com relação às suas terras. “Fomos muito bem recebidos em São Paulo. Agradecemos a todos e a todas as manifestações de solidariedade e apoio à nossa causa. Acreditamos que nosso grito no asfalto se transforme em sementes que farão brotar mais vida em nossas terras reconstruídas.
Egon Heck
Movimento Povo Guarani Grande Povo
Dourados, 10 maio de 2010

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