quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Brasil se despede de Pena Branca
O músico morreu no início da noite de segunda-feira, aos 70 anos

O choro da viola teve, no início da noite de segunda-feira (8), um significado além da figura de linguagem. O instrumento das mãos de um cantador uberlandense de criação silenciou-se junto ao seu coração. A morte, aos 70 anos, de José Ramiro Sobrinho, Pena Branca para o mundo, “Zé” para a família e “Manuvéi” para os amigos, estampou o nome de Uberlândia, mais uma vez, na imprensa nacional.

Foi assim, desde que Pena Branca e o irmão Xavantinho - Ranulfo Ramiro da Silva, falecido há 11 anos - começaram a tocar e fizeram sucesso dentro e fora do país. Durante os shows, Uberlândia e o Distrito de Cruzeiro dos Peixotos, onde Xavantinho nasceu, eram sempre lembrados. Mas a retribuição não foi a mesma. “Ele foi muito injustiçado pelos empresários e pelo próprio público. Uberlândia perdeu o Pena Branca, tanto que nem aqui ele foi enterrado”, disse o cantor e amigo Luis Dillah.

O músico também uberlandense acompanhou a dupla em vários shows e também na turnê-solo “Semente Caipira”, o trabalho que rendeu a Pena Branca o Grammy Latino de Melhor Disco Sertanejo em 2001. “Ele agora está em um mundo melhor. Vai ser mais ouvido e vai ensinar os artistas a fazer música de dentro pra fora, sem pensar em conta bancária”, disse Luis Dillah.

Os planos com a cidade da infância ficaram para seus seguidores e serão mantidos. Entre eles, o show marcado para 14 de maio, na programação do 7º Encontro de Violeiros em Uberlândia e a 1ª Semana Cultural Pena Branca e Xavantinho, marcada para agosto em Cruzeiros Peixotos, onde está prevista também a construção do Memorial da dupla, segundo o produtor Tarcísio Manuvéi. “Tínhamos projetos interessantes. Nos falamos sábado [6] e ele estava superbem. Foi um baque, mas tenho que continuar o trabalho”, disse Manuvéi, que foi ontem à capital paulista acompanhar o velório do amigo e o enterro, no Cemitério de Pinheiros.

“Ele pra mim é o Zé”, disse a irmã Maria

Pena Branca nasceu em Igarapava (SP) em 4 de setembro de 1939 e foi o primeiro dos sete filhos do casal Dolores Maria de Jesus e Francisco Silva. Três anos mais tarde nasceu Xavantinho, já no Distrito de Cruzeiro dos Peixotos, onde o pai possuía uma pequena lavoura e criava gado em terras arrendadas. Dona Coitinha, como era conhecida Dolores, lavava roupa para fora e ajudava o marido, com quem fazia dupla - ela no vocal e ele no cavaquinho.

Os dois irmãos começaram a tocar na infância, no cavaquinho de Francisco, que morreu em 1950, quando Pena Branca tinha 12 anos e Xavantinho, 9 anos. “Eu tinha 2 anos e o Zé [Pena Branca] ficou no lugar de pai. Ajudou a criar nós tudo. Trabalhava de dia, pra ter o que comer de tarde“, disse Maria Aparecida Silva, irmã da dupla e moradora de Uberlândia.

Cida não foi a São Paulo acompanhar o velório e o enterro do irmão mais velho e, abalada com a notícia, pouco falou à reportagem do CORREIO. “Só tenho pra dizer que ele cumpriu a meta dele aqui e Deus o chamou. Ele pra mim é o Zé. Pena Branca era na hora da profissão”, afirmou.

Rolando Boldrin relembra o primeiro encontro

Morando em São Paulo desde 1968, a dupla participou de um programa de televisão pela primeira vez em 1981, a convite de Rolando Boldrin, na estreia de "Som Brasil" - que ficou no ar na Rede Globo durante seis anos. “Eles foram meu primeiro contrato para gravar um disco com o Selo Som Brasil. Fomos próximos, mas com a morte de Xavantinho, nos afastamos e falávamos de vez em quando”, disse Rolando Boldrin ao CORREIO.

Os irmãos contavam em entrevistas que, no dia no primeiro programa de Boldrin, o apresentador colocou um carro da empresa para conseguir localizá-los, encontrando Pena Branca em um quarto e cozinha em Guarulhos. “Foi uma surpresa para mim a morte dele. Ele viajou fora do combinado, mas penso como Vinicius de Moraes, pessoas assim não morrem, ficam encantadas. Acho que a música perdeu uma das suas grandes figuras”, disse Boldrin.

A dupla gravou junto dez discos. Pena Branca, em 11 anos de carreira solo, gravou mais três trabalhos: “Semente Caipira” (2000), “Pena Branca canta Xavantinho” (2002) e “Cantar Caipira” (2008).

Cantor assistia a notícias do esporte

Pena Branca morreu na noite de segunda-feira (8) por volta das 18h. O cantor assistia a notícias de esporte (era corintiano fervoroso) quando caiu da cadeira onde estava sentado, em sua casa, no Jaçanã, zona norte paulistana. Sua mulher, Maria, chegou a levá-lo ao Hospital São Luiz Gonzaga, no mesmo bairro, onde recebeu atendimento médico.

Ele não vinha apresentando nenhum problema de saúde. Apenas se preocupava com o peso, o que fazia com que, muitas vezes, abrisse mão da paixão que tinha pelos pratos mineiros, como galinhada, leitão à pururuca, que o cativavam desde a infância passada em Uberlândia.

O corpo do cantor foi enterrado ontem, na capital paulista, às 17h, ao lado do irmão Xavantinho e da mãe Dolores.

Fonte: Jornal Correio de Uberlândia

Núbia Mota com Agência Globo

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