segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A deficiência da comunicação e a audiodescrição

“A Belíssima tem uma promoção que vai fazer a sua cabeça! Modelador de cabelos Master Hair: seca, penteia e deixa seus cabelos mais bonitos. Ligue agora para o telefone que está em seu vídeo e aproveite esse precinho especial que cabe em seu bolso”.


A propaganda é fictícia, mas qualquer semelhança com a realidade não será mera coincidência. Diariamente centenas de pessoas com deficiência visual estão expostas à “cegueira” de alguns meios de comunicação que insistem em invisibilizar uma parcela da população que já se faz notar há décadas.

Sempre ouço queixas de meus amigos ou colegas que possuem limitação visual acerca de anúncios na TV que não deixam rastros sonoros de onde comprar, para onde telefonar ou mesmo quanto pagar. Mas todas as informações estão ali, “basta dar uma olhadinha em seu vídeo”.

A evolução das lutas por inclusão mostra a pessoa com deficiência visual como um protagonista muito interessante. Em tempos passados, a imagem que se tinha de um cego, por exemplo, era a de um pedinte tocando uma gaita. Hoje temos representações em diversos setores da sociedade.

Quem já conseguiu sair do quarto isolado da casa, ser alfabetizado através de uma escrita que atende a sua necessidade sensorial, anda sozinho pela cidade conduzido por um cão-guia ou pela tradicional bengala, ocupa um banco de universidade e um lugar no mercado de trabalho ou mesmo aquele que ainda não conseguiu viver todas essas etapas, merece uma atenção especial. Acho justo.

Às vezes, em meus dias de idéias mais ácidas, eu comento provocativa: “a inclusão social plena do cego acontecerá quando seu potencial de consumo for descoberto”. Luto bravamente para não me guiar por essa hipótese, porque confio na evolução do ser humano e da consciência de que é melhor vivermos juntos do que segregados. E vou confessar: acredito mesmo na bondade.

Estamos vivendo um momento muito especial no Brasil. No dia 1º de julho de 2011 a Audiodescrição chegou oficialmente em nossa televisão. Aquelas cenas mudas onde o casal se olha nos olhos, a música romântica invade tudo e eles se beijam ardentemente poderão ser “vistas” por todas as pessoas, porque haverá um locutor narrando criteriosamente o que necessita ser dito para que a compreensão da obra, por parte dos que têm limitação visual, aconteça. E a Audiodescrição não se aplica só à televisão: através desse recurso, quem possui alguma limitação visual também poderá usufruir, com maior proveito, de espetáculos de teatro, dança, exposições de arte, filmes e toda produção onde se faça necessário traduzir imagens em palavras.

Infelizmente apenas duas horas da programação semanal da TV conta com esse recurso [disponível por sinal digital], mas a perspectiva é que haja ampliação. A notícia boa é que, cegos ou videntes, estamos “de olhos bem atentos” para que o direito ao acesso seja realmente de todos. Para citar um exemplo de maneiras delicadas de termos nossos direitos garantidos e encerrar esse texto, compartilho com vocês um ocorrido do qual fui cúmplice:

Tenho uma amiga que cursava História em uma grande universidade e durante um ciclo de seminários realizados por alunos, todos teriam de compartilhar resumos impressos de suas comunicações orais. Ninguém atentou que essa minha amiga é cega e que sua escrita é o Braille. Todos os resumos das palestras foram entregues a ela em tinta. Quando foi sua vez de palestrar, entregou seu resumo em Braille para todos os presentes. Houve quem protestasse e dissesse “eu não sei ler isso aqui!!” e ela respondeu: “você não SABE Braille, mas pode aprender e eu não POSSO ler em tinta, porque sou cega. É só uma forma de vocês entenderem como nos sentimos quando o acesso à leitura nos é negado”. A partir daí, os colegas providenciaram resumos em áudio e outros me procuraram para produzir o material em Braille. Se quem não enxerga se omite, a comunicação continuará sofrendo de uma deficiência crônica que pode agora ser chamada de “descaso”.
Por: Patrícia Silva de Jesus

Um comentário:

Blog da Audiodescrição disse...

Excelente artigo da Patrícia! E obrigado por nos ajudar a divulgar a audiodescrição, recurso de acessibilidade tão importante para milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência

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