domingo, 16 de novembro de 2008

Balada feroz















Canta uma esperança desatinada para que enfureçam silenciosamente os cadáveres dos afogados Canta para que grasne sarcasticamente o corvo que tens pousado [sobre tua omoplata atlética Canta como um louco enquanto teus pés vão penetrando a massa sequiosa de lesmas Canta! para esse formoso pássaro azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu êxtase. Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a sobre o corpo felpudo [das aranhas Ri dos touros selvagens carregando nos chifres virgens nuas para o [estupro nas montanhas Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos histéricos, dos masturbados e [dança! Dança para a lua que está escorrendo lentamente pelo ventre das [menstruadas. Lança teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo as cidades Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos amores [miseráveis Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos gênios. Dança, ó desvairado! Dança pelos campos aos rinchos dolorosos das [éguas parindo Mergulha a algidez deste lago onde os nenúfares apodrecem e onde a água floresce em miasmas Fende o fundo viscoso e espreme com tuas fortes mãos a carne flácida [das medusas E com teu sorriso inexcedível surge como um deus amarelo da imunda [pomada. Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as narinas, [lança-te sobre a cidade mortuária Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um velho [canhão soterrado, volta E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem as fezes [verdes das estradas. Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro por entre os raios [do sol frenético Faz rugir com o teu calão o eco dos vales e das montanhas Mija sobre o lugar dos mendigos nas escadarias sórdidas dos templos E escarra sobre todos os que se proclamarem miseráveis. Canta! canta demais! Nada há como o amor para matar a vida Amor que é bem o amor da inocência primeira! Canta! — o coração da donzela ficará queimando eternamente a cinza [morta Para o horror dos monges, dos cortesãos, das prostitutas e dos [pederastas. Transforma-te por um segundo num mosquito gigante e passeias de [noite sobre as grandes cidades Espalhando o terror por onde quer que pousem tuas antenas [impalpáveis. Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros o ouro E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza! E com todo esse pus, faz um poema puro E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida E ri e canta dos que pasmados o abrigarem E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão. Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta E dança, porque dançar é o destino da pureza Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno Carne morta ou carne viva — toma! Agora falo eu que sou um!Vinicius de Moraes-- uma cuia de bêjosmaria lilia silva diniz 99-8116-9197 3525-2616










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