sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um anos sem LAÍS ADERNE

Por: Paulo Timm - Diretor de ALEXANIA TV DIGITAL



Há um ano, vítima de uma enfermidade inominável que ainda teima em se alastrar em nosso meio, morria LAÍS ADERNE, um verdadeiro ícone de nossa região e , particularmente, de Alexânia e Olhos d´Água. Há um ano todos os meios culturais de Brasília e sua região goiana de maior influência choravam o passamento e cantavm as glórias desta mulher que soube, como poucas, recuperar a importância do cerrado, das mais belas tradições da terra de Anhangüera, de sua gente , à epopéia brasiliense. Como mineira, natural de Diamantina, Laís resgatou uma dívida dos construtores da Nova Capital com Goiás. Foi o espírito goiano do mudancismo , um movimento que manteve acesa a chama da mudança da capital para o Planalto Central durante os anos 40 e 50, que motivou JK em sua histórica decisão de construir Brasília. E foi a fulminante decisão do Governador Juca Ludovico, nos idos de 54- o país ainda abalado pela morte de Vargas- que assegurou o controle estatal da terra goiana sobre a qual JK colocou a primeira pedra da cidade. E foi , ainda, a energia guerreira de um adventício, Bernardo Sayão, em nome de Goiás, que abriu os primeiros caminhos da Capital da Esperança. Mas os goianos não resistiram ao impacto da grande obra e seus mestres construtores. Acanhados, contemplaram em silêncio o erguimento da cidade, bafejada com os estranhos ares da modernidade reinante na Corte. E fez-se a glória de JK, Niemeyer e Lucio Costa sem que de Goiás se soubesse um ponto. Faltava alguém que mostrasse à história que sobre essa vastidão, desde priscas eras, habitava um meio físico, um meio humano e um meio cultural riquíssimo. O espaço sobre o qual ergueu-se o colosso não era um deserto como os metropolitanos cosmolitas acreditavam. Era um oceano profundo de tradições. Laís Aderne foi essa pessoa . Ela saiu de Brasília, percorreu os caminhos de Goiás, as estradas reais que desde os incas articulavam essa imensa hinterlândia americana e mostrou a todos a riqueza destas tradições. Nos seus últimos anos de vida animava , com todo fervor, a idéia do Eco-Museu do Cerrado. E , já no início dos anos 70 ajudava a comunidade de Olhos d Água, marcada pela ferida narcísica da perda de sua condição munícipe, a recompor-se em sua dignidade através da Feira do Troca. Laís fez muito mais do isso. Fez muito pela educação e pela cultura de Alexânia e Olhos d Água. Fez tanto que hoje se justifica dar-lhe o nome a iniciativas que assinalam essa auto-consciência da cidade. É tempo de perpetuarmos o nome de Laís Aderne , por exemplo, no Pólo Universitário, sem desdouro do nome de Cora Coralina, outro ícone do Estado, mas que se dobraria, com a mesma naturalidade com que fazia doces e versos, à imposição do nome de Laís em nosso meio. É tempo do nome de Laís inscrever-se nas Escolas , nas Praças , nas Ruas da cidade para que os jovens saibam fazer da vida dela um exemplo para si mesmos. E para que nossa gratidão com esta mulher se afirme, enfim , em gesto. Para tanto ficam conclamados a Administração Municipal e a Câmara de Vereadores e todos aqueles que, sensibilizados, tomem esse Editorial como um verdadeiro MANIFESTO divulgando-o em seu meio. E , como uma pequena homenagem, o poema de seu filho saudoso:
Navio Presente
(Lais Aderne 1937-2007)
Hoje o mar levou
um navio cheio de presentes,
levou a menina
que navegava com os sonhos na ponta dos dentes
levou em varias caixas
pois em uma só não cabia.
O mar recebeu sorrindo
em ondas de alegria
foi navegar pela Inglaterra,
passando pelo porto de João Pessoa,
levando na bagagem um sabiá,
que ainda canta e voa
no meio do oceano.
Havia numa ilha chamada Brasília
De lá rumou sua quilha pra parar em Belém do Pará
Diamantina enviava sua filha
que mesmo em terra só sabia navegar
enquanto ela navega
quem fica em terra parcela a saudade pelos dias do resto da vida
içando velas e bandeiras brancas na hora de sua partida.
Seu filho, Pierre Aderne

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