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quarta-feira, 3 de março de 2010

A ética e a estética de Claudia Andujar
Novo livro da fotógrafa expõe a dupla face do contato dos índios com o homem branco e as marcas que disso resultam
Por Juan Esteves*
Um longo percurso geográfico – e espiritual – foi tomado pela fotógrafa Claudia Andujar desde sua saída, em 1944 , ainda aos treze anos, da cidade romena de Oradea, então sob o domínio húngaro, até suas fotografias dos índios Yanomami registradas entre 1981 e 1983, e sua publicação no livro Marcados, agora em 2009.

Depois de mais de sessenta anos, Claudia Andujar propõe, através de sua arte fotográfica, uma interpretação de sua herança paterna, revisitando o holocausto e seus desdobramentos, que nesta ínfima centelha temporal se unem aos índios Yanomami. Uma longa caminhada que ainda está longe de vislumbrar seu término, distante de encontrar seu entendimento e, talvez, sua paz.

As marcas começam em 1944 com a estrela de Davi, (o Mogen David) costurada nos trajes de seus pares, mais precisamente no peito deles, amarela e bem visível, a não deixar dúvidas. Deste tempo de crueldades restou um retrato de um colega da escola por quem se apaixonou, guardado por muitos anos. Peças que ainda reverberam na fotógrafa e que foram acolhidas ao longo de sua importante obra.

O retrato não sobreviveu até 1981, quando a fotógrafa acompanhou os médicos Rubens Brando e Francisco Pascalichio, da Comissão pela criação do Parque Yanomami, às entranhas da Amazônia brasileira. Era o tempo que ultrapassava o "milagre brasileiro" dos anos 70 e a ideia era criar uma sistemática de saúde que não permitisse reduzir as aldeias a alguns poucos indivíduos, como vinha acontecendo.

Os "retratos marcados" surgiram de anotações para um registro médico dos Yanomami. Era necessário identificá-los. Uma placa era pendurada no pescoço, como aqueles números de plástico antigos, iguais aos dos passaportes ou das fichas criminais da polícia. Uma nova identidade era criada para crianças, adolescentes, adultos e velhos Yanomami.

Na série de retratos Claudia Andujar não tenta exorcizar o método, muito menos justificá-lo. Para ela, tratava-se de um esforço na busca da sobrevivência destes seres humanos. Aquela mesma busca a que assistira nos judeus contemporâneos de sua infância. Um sentimento que desperta não só ambiguidade, mas uma digressão moral cujo papel na fotografia se torna extremamente importante.

Os Yanomami "marcados" de Claudia Andujar não estão no caminho da morte, como ela mesmo ressalta. Ao contrário, seguem o caminho da vida. O registro de um ato humanitário, que encontra anos depois um conceito estético que transpõe o registro documental. A professora e escritora Stella Senra, em seu texto "O último círculo", ensaio que acompanha o livro, alerta para a raridade da relação entre postura ética e estética. Para a pensadora, a obra da fotógrafa é paradigmática nesse sentido.

O artista parisiense Christian Boltanski (que nasceu em 1944) em sua obra Le suisse morts (1990) ou em muitas outras em que ele se apropria de retratos fotográficos, relembra em sua sintaxe o holocausto. Neste caso, diz o artista, o retrato fotográfico se reporta sempre a alguém desaparecido. No sentido oposto, sem dúvida, o caráter ontológico suscitado pelos retratos de Claudia Andujar gera a questão proposta a priori pela fotógrafa: a preservação daqueles indivíduos.

Nestes belíssimos retratos, Claudia Andujar nos proporciona uma síntese de uma grande história que, se às vezes adquire contornos trágicos, às vezes também nos devolve a crença na restauração da ordem natural. Também confirma que na relação intrínseca entre a arte fotográfica e a realidade, a subjetividade ora torna-se presente, ora ausente por trás de cada olhar. A questão da numeração de cada indivíduo – tão cara ao passado da fotógrafa – por suas mãos se transmuta da morte para a vida.

Estas alternativas fazem parte da dinâmica do processo determinado pela fotógrafa. Para Stella Senra, Claudia Andujar está "atenta ao modo como cada Yanomami se põe ou é posto diante da câmera, ao seu comportamento diante do dispositivo fotográfico". Mais adiante, ela também registra que a documentação e a ação fotográfica não se relacionam do mesmo modo, sendo o ato de fotografar uma "exigência da ação".

Neste aspecto, cada retrato se distancia do mero registro antropológico. Cada Yanomami se transforma em protagonista da obra da fotógrafa, assim como assume seu papel de importância ao se posicionar com atitude. Esta confere reverência, ora irreverência. Em alguns momentos expressam sua intranquilidade, para instantes depois revelarem até mesmo certa sensualidade. Podem exibir tudo, menos a indiferença diante da câmera.

O que realmente importa para Claudia Andujar é o "ser" Yanomami. Não há dúvida que a câmera fotográfica tornou-se uma prótese através da qual ela se manifesta, não com militância, mas sim como credo. Neste sentido, as detalhadas informações escritas pela fotógrafa nas oito páginas anexadas na edição constituem-se numa liturgia a ser seguida no acompanhamento de suas imagens.

Antonino, o protagonista de Italo Calvino no conto "A aventura de um fotógrafo" chega a uma conclusão: "Talvez a verdadeira fotografia seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotado dos massacres e das coroações". Não há dúvida que alheio à ficção, o retrato fotográfico de Claudia Andujar é uma expressão maior deste relato. Que a sua colocação no tempo e espaço definido por ela balizam o comportamento do presente e do futuro.

Difícil não pensar em todos estes Yanomami retratados por Claudia Andujar como "fragmentos" de uma grande história que ela vem mantendo viva desde sua infância até os dias de hoje. E, não fosse por ela, a sempre juntar estes importantes pedaços de sua alma, certamente os mesmos não passariam de imagens amarrotadas e caídas no esquecimento.
*Juan Esteves é fotógrafo, editor e crítico de fotografia

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Exposição: O ritual do Xingu retratado por Renato Soares

A partir do dia 14 de março, a Caixa Cultural recebe a exposição “Kuarup – A última viagem de Orlando Villas Boas”. A mostra traz, através dos cliques de Renato Soares, imagens da cultura indígenas e tem curadoria de Denise Carvalho, Gilberto Maringoni e Noel Villas Bôas. Todo este material foi concebido através da vivência do sertanista Orlando Vilas Bôas.

Resultado de um mergulho de Villas Bôas da cultura indígena – sobretudo o universo do Alto-Xingu –, as imagens reproduzem aquilo que o sertanista viu de perto: uma sociedade equilibrada e organizada de uma forma tribal.

Esta será uma boa oportunidade para quem quiser entender um pouco mais sobre como os índios encaram a morte. Soares fez imagens sobre o ritual de homenagem aos mortos indígenas – o Karup. A mostra terá também mapas, textos explicativos, entre outros objetos. O Karup foi realizado em homenagem a Orlando e reuniu mais de dois mil índios.

Orlando Villas Bôas e seus irmãos (Cláudio e Leonardo Villas Bôas) foram os “homens brancos” que tiveram contato com o xingu. A dupla teve um papel importante na implementação de políticas de proteção à saúde e à cultura locais.

Mais
Quatro espaçosforam pensados para a concepção cenográfica. Na primeira sala, a biografia de Orlando. A segunda parte reúne objetos pessoais. Em seguida o visitante é levado a um ambiente multimídia com vídeos sobre o Kuarup. Para finalizar, uma oca em estilo Xingu foi montada na última e principal sala, onde são exibidas as 34 fotografias de Renato Soares.

Serviço
O Que: Kuarup
Quando: de 14/03 a 11/04
Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 09:00 às 21:00
Confira todas as datas Dom 14/03 das 09:00 às 21:00
Ter 16 a Dom 21/03 09:00 às 21:00
Ter 23 a Dom 28/03 09:00 às 21:00
Ter 30 a Dom 04/04 09:00 às 21:00
Ter 6 a Dom 11/04 09:00 às 21:00

Quanto: Catraca Livre
Onde: Caixa Cultural
Endereço: Praça da Sé, 111 - Centro - São Paulo. Telefone: (11)3321-4400.
Fonte:http://catracalivre.folha.uol.com.br

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